vinícius de miranda
CRP 07/31885
dizer algo sobre si
mesmo é sempre o texto mais difícil a se produzir.
em geral temos a ideia de que a dificuldade para falar de nós mesmos, para criarmos saídas em situações difíceis e para nos reinventarmos quando necessário, se dá porque dentro de nós é -ou está- "tudo muito complexo". pude experimentar justamente o contrário. costumamos olhar para nós próprios com olhos muito limitados: "sou fulano"; "minha cor favorita é tal"; "não me relaciono com determinado tipo de gente"; "nisso eu não mudo"; "o certo é fazer assim/assado"; "eu nasci desse jeito"; etc. ou seja, um olhar/falar sobre si nada complexo mas totalmente limitado, que oferece poucas saídas. Por que não "beltrano"? Por que não "outra cor"? enfim. ao nos tornarmos mais complexos, falar e pensar sobre si mesmo talvez não se torne necessariamente "mais fácil" mas, pelo menos, muito mais interessante. talvez esse seja um dos principais benefícios que os anos de análise nos trazem; com eles temos a oportunidade de nos tornarmos mais complexos. mais ainda... e tudo a nossa volta.
afinal, a complexidade com que conseguimos nos ver, muitas vezes é a mesma com que conseguimos ver o que nos rodeia. lembra da velha filosofia "os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo"?
psicanálise
conheci a psicanálise graças a um certo acaso entre os cursos de artes visuais e filosofia. ter lido Freud foi um dos grandes acontecimentos da minha vida a tal ponto que desde então escutar histórias ganhou a dimensão de uma vocação. é preciso dizer que sem as tantas páginas de antropologia pelas quais passei -e as aventuras a que elas me levaram em outras culturas-, talvez a psicanálise não tivesse adiquirido para mim as proporções de um ofício. nesse sentido, me dedico a escutar histórias por meio dessa clínica, tendo feito isso no hospital em que estagiei, no serviço de saúde mental onde trabalhei por anos e no consultório que mantenho desde formado. os estudos e discussões em grupos, as supervisões com colegas mais experientes e a aventura de experimentar uma análise pessoal me sustentam nesse lugar de escuta. tenho predileção pelo trabalho de Freud, seu pensamento e sua clínica; minha prática reflete ainda influências de pós-freudianos, como é o caso de Lacan. minha formação na graduação (Universidade de Passo Fundo, UPF) teve um acento psicanalítico muito relevante e me levou a produzir uma reflexão sobre a circulação do medo e desamparo como afetos políticos protagonistas na vida urbana contemporânea; continuei os estudos acadêmicos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), cursando o mestrado em Psicanálise: Clínica e Cultura, onde desenvolvo uma pesquisa no departamento de psicopatologia em torno dos impactos psíquicos que o neoliberalismo provoca na subjetividade contemporânea, sob orientação do Dr. Fernando Hartmann.
consultório
não demorou para que a possibilidade de fazer clínica se tornasse uma necessidade para mim. meu consultório é frequentado por diferentes perfis e gerações; desde a pandemia tenho experimentado a possibilidade para trabalhar com os pacientes também no formato online. mantenho consultórios para atendimento presencial em Passo Fundo/RS e em Porto Alegre/RS.

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etc.
a frase atribuída frequentemente a Freud "onde quer que eu vá descubro que um poeta esteve lá antes de mim", não tem referências precisas. mas a ideia é boa, e descreve muito bem o trabalho de sua vida. Freud teve a coragem de, no meio médico do final do século XIX e início do século XX, também fundamentar sua teoria e técnica em inúmeros fragmentos do universo artístico e mitológico, conferindo-lhes o mesmo grau de relevância dado, por exemplo, aos produtos científicos tão valorizados por ele. lembremos das suas inúmeras referências ao teatro, à literatura e à escultura; Goethe, Shakespeare, Dostoiévski, Leonardo da Vinci, Michelangelo... para citar algumas delas. o saber mitológico, construído em comunidade, era muito valorizado por Freud tendo em Édipo Rei e Narciso suas mais famosas inspirações. a agitada psicanálise francesa dos anos 1960/70 não passou ilesa ao surrealismo, tendo sido por ele fortemente influenciada. esse excerto "etc." é um espaço que guardei aqui para compartilhar minhas aproximações com o universo das artes e suas influências no meu trabalho clínico.
a literatura
não sei precisar quando comecei a me interessar por literatura. talvez ao ter notado que os gibis (li muitos quadrinhos dos anos 1980/90 na infância) continham algo a mais que os fabulosos desenhos; o que logo fez com que, se o roteiro não fosse bom, eu logo abandonasse a leitura. uma certa maturidade literária chegou quando eu conheci a poesia concreta de Ferreira Gullar e o romance de Guimarães Rosa - para ficar em apenas dois autores. o Poema Sujo e Grande Sertão: veredas ficaram sendo para mim esquinas incontornáveis, onde de tempos em tempos, retorno lendo-os de novo, pela primeira vez. o Poema Sujo é escrito praticamente em associação livre (como solicitamos que o paciente fale), em um contexto político crítico; tornou-se rapidamente um monumento da língua portuguesa e lê-lo exige um tipo especial de atenção, quase flutuante (como a que utilizamos para escutar o paciente). o Grande Sertão: veredas é um romance universal genuinamente brasileiro; lá encontramos o amor, a morte, a amizade, o desamparo, a tragédia, o diabo, o preconceito... nos limites do idioma, como esses temas costumam aparecer também na clínica, com raras palavras.
as artes visuais
desenhei, com ferequência incomum, desde a infância até a idade adulta, quando iniciei minha trajetória acadêmica no curso de artes visuais no norte do RS. nesse contexto tive a oportunidade de conhecer os trabalhos de Ruth Schneider e Roseli Doleski Preto e de fazer uma exposição com meu trabalho nessa mesma faculdade. interrompi os estudos acadêmicos nas artes ao iniciar o curso de psicologia, no entanto esse universo nunca deixou de me afetar; retomei os estudos informalmente, já em Porto Alegre, no atelier de Pena Cabreira, quem eu conheci através do trabalho de Gelson Radaelli. tenho grande admiração pelo trabalho de Anita Malfatti, Cândido Portinari e Iberê Camargo, obras cujas cores, temas e densidade, respectivamente, influenciam muito minha reflexão clínica.
bibliografias
com relação à psicanálise, prepondera em minha leitura os trabalhos de Freud; no Brasil, acompanho a obra de Maria Rita Kehl e Vladimir Safatle. a partir da pesquisa que desenvolvo em torno dos impactos psíquicos provocados pelo neoliberalismo, a leitura de Pierre Dardot e Christian Laval, acompanhados de Marx figuram como grandes referências dentro da filosofia/sociologia. sempre que posso retorno à antropologia (que estudei com rigor acadêmico por cinco anos na Universidade de Passo Fundo), tendo como objeto o trabalho de Claude Lévi-Strauss, Bronislaw Malinowski, Mary Douglas e Frederik Barth. para ficar em apenas uma obra de cada autor recomendaria A Interpretação dos sonhos (1900); Bovarismo Brasileiro (2018); O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo (2016); A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (2017); O Capital (1867); Tristes trópicos (1955); Argonautas do Pacífico Ocidental (1922); Pureza e Perigo (1991) e Grupos étnicos e suas fronteiras (1969), respectivamente.
